Barco Tipico de Santa Catarina – As baleeiras

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Gostaria muito de compartilhar com vocês essa história que vi na internet, espero que gostem !!!
O barco típico de Santa Catarina
 
Baleeira é um tipo de barco que só existe em Santa Catarina. Descende de barcos ingleses, mais tarde levados para os Estados Unidos, onde passaram a ser muito usados na caça à baleia, por serem leves e de ótima navegabilidade. Esses barcos chegavam ao local da caça a bordo dos navios baleeiros norte-americanos, que pescavam nos mares do sul e faziam escalas nas ilhas dos Açores.
Os açorianos começaram, então, a conviver com as baleeiras, seja porque os marinheiros do arquipélago eram contratados para a caça à baleia, ou porque os barcos acabavam ficando pelas ilhas, como pagamento por serviços e alimentos. Assim aprenderam a reparar e, mais tarde, a construir esse tipo de embarcação. Quando migraram para o Brasil, os açorianos que povoaram o litoral catarinense trouxeram o conhecimento de fabricar e usar a baleeira, que se tornou o barco típico de Santa Catarina.
Origem nórdica
 
Os romanos já haviam notado que os povos nórdicos utilizavam embarcações de proas e popas iguais, característica dos famosos barcos vikings, que por tanto tempo aterrorizaram a Europa. Originalmente, essas embarcações foram construídas onde hoje é a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. Depois da conquista da Inglaterra, passaram a ser fabricados também nas ilhas britânicas e na Normandia e Bretanha francesas. A baleeira de Santa Catarina é a única embarcação tradicional brasileira relacionada com os barcos nórdicos, portanto a única a apresentar dupla proa.
Construção
A base da construção de uma baleeira é a quilha, normalmente feita em peroba ou canela. As vigas da quilha são emendadas com as rodas de proa e de popa. Então o alefriz é entalhado, peça onde são encaixadas as cavernas e as tábuas do casco. As cavernas podem ser de dois tipos, recortadas ou cozidas, e confeccionadas também em peroba ou canela, sempre na direção das fibras, para garantir a máxima segurança das peças. Elas são encaixadas na parte superior da quilha. Para fazer as cavernas recortadas, usam-se tábuas ou pranchões, aproveitando-se os galhos curvos das árvores, enquanto as cavernas cozidas provêm do aquecimento das réguas de madeira para curvá-las, resultando em peças mais delgadas e resistentes.
O costado também pode ser de dois tipos. No trincado, muito mais comum, as tábuas são sobrepostas e as juntas calafetadas. No liso, as tábuas são fixadas lado a lado, com as juntas também calafetadas, como na baleeira Brigadeira, exposta nesta sala. O costado ideal é feito de cedro, resistente e flexível. O forro e os paneiros internos, assim como o mastro, são usualmente confeccionados com araucária, o pinheiro do Planalto Serrano de Santa Catarina, uma madeira fácil de ser trabalhada e resistente ao tempo, quando em contato com a água salgada.
Características
São três as principais características das baleeiras catarinenses: casco curvo e hidrodinâmico, rodas de proa e popa em arco e dupla proa. A mais importante é o conjunto de linhas sinuosas e dinâmicas do casco, que define a silhueta característica das baleeiras. O perfil dos cascos pode variar: olhando de frente, as baleeiras de Florianópolis parecem um semicírculo, enquanto as do sul e do norte do estado tendem a uma forma oval. A sinuosidade do costado é imperativa na construção, independente do tipo de caverna a ser adotado.
Cores
 
A cor básica das baleeiras catarinenses é o branco, que normalmente reveste a maior parte do casco. Os frisos, a borda e as tábuas superiores são, quase sempre, pintadas de vermelho, amarelo e azul. O verde e o marrom também são encontrados. Na Armação de Itapocorói preserva-se uma bela combinação de cores, com pequenas figuras se repetindo em linha por todo o costado. No canto da praia onde fica o trapiche, dezenas dessas embarcações descansam sobre a água, compondo um dos mais lindos cenários de Santa Catarina.
Usos
 
Em Santa Catarina, as baleeiras sempre foram usadas preferencialmente na pesca. Entretanto, também atuaram no transporte de carga e de passageiros. O naturalista francês August de Saint-Hilaire foi transportado por uma delas durante sua viagem ao Brasil no início do século XIX. A viagem de 50 quilômetros entre Tijucas e Florianópolis ainda era feita de baleeira no início do século XX. Atualmente, algumas dessas embarcações transportam turistas para passeios ou pescarias dentro das baías ou em pleno mar aberto.
A vela
 
Parece ter havido duas opções principais de velame. Uma delas era a mesma ainda hoje utilizada nas canoas, a tradicional vela de espicha, cortada na altura do mastro. A outra, mais sofisticada, era composta por uma vela mestra sem retranca, levantada com carangueja, tendo uma pequena vela na proa. Na segunda metade do século XX, quando os motores foram substituindo os antigos velames de algodão, o conhecimento náutico foi definhando. Os raros mastros que permaneceram em uso passaram, então, a usar apenas a solitária espicha, mais simples e fácil de manejar.
Navegabilidade
 
As baleeiras são barcos de notável qualidade náutica, firmes e seguras tanto em ventos favoráveis como contrários, proporcionando conforto e segurança a seus usuários. Foram feitas para navegar movidas a vela ou remos, mas adaptaram-se muito bem aos motores. Comparada com um bote de mesmo comprimento e motor, uma baleeira navega com muito mais velocidade.
Essa surpreendente agilidade na navegação é atestada pela história contada por Pier Luigi Palumbo, empresário paulista tão apaixonado por baleeiras que chegou a construir uma. Ele conta o episódio envolvendo o pai do famoso arquiteto naval e velejador argentino Germain Frees, que na década de 1930 navegou na baía de Tijucas vindo da Argentina em um moderno veleiro de cruzeiro. Sua tripulação, no interior da cabine, não entendia o rumo violento dado pelo timoneiro, que insistia em colocar o barco contra o forte nordeste que soprava. Subindo ao convés, os tripulantes compreenderam o motivo: seu iate estava sendo continuamente ultrapassado por várias baleeiras de pescadores locais.
Admirado com a qualidade náutica dos barcos, o argentino atracou o seu veleiro e desenhou detalhadamente a veloz embarcação. Elaborou, assim, o melhor documento existente sobre a mastreação e o velame das baleeiras catarinenses.
Ocorrência
 
As baleeiras existem onde os açorianos se estabeleceram. Seu pólo de construção e difusão foi a Ilha de Santa Catarina, centro da ocupação açoriana no sul do Brasil. Dali, os imigrantes espalharam-se em menor número para as demais comunidades do litoral catarinense, entre São Francisco do Sul (Norte) e Laguna (Sul). Em determinados locais, as baleeiras sofreram adaptações, especialmente em Laguna, com seus mares mais bravios, que exigiram barcos maiores e mais fortes. Tijucas, Itajaí e Armação de Itapocorói (Penha) também construíram modelos próprios.
Atualmente, as baleeiras ainda predominam em vários locais da Ilha de Santa Catarina, como na Lagoa da Conceição e na Armação do Pântano do Sul. Os modelos maiores estão no sul do estado, nas praias de Garopaba, Palhoça e Laguna; os menores, nas águas abrigadas pelas baías sul (Ribeirão da Ilha) e norte (Santo Antônio e Sambaqui) de Florianópolis. Em Governador Celso Ramos elas compõem a paisagem das praias de Ganchos, Armação da Piedade, Fazenda e Caieira do Norte. Também sobrevivem em Tijucas, Porto Belo, Bombinhas, Balneário Camboriú, Itajaí e São Francisco do Sul.
A praia da Armação de Itapocorói, no município de Penha, é a que guarda o maior número de baleeiras: cerca de 50 contadas no ano 2000. Essas embarcações típicas de Santa Catarina foram levadas para o litoral do Rio de Janeiro, onde passaram a ser construídas com algumas mudanças. São encontradas em Parati e em Angra dos Reis, onde preservam a denominação baleeira. Também existem exemplares, ainda que poucos, no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo.
Lugares especiais
Armação de Itapocorói
 
A comunidade que abriga a maior quantidade de baleeiras do Brasil foi fundada em 1778 por moradores da Armação da Piedade, que fugiram dos espanhóis, quando ocorreu a invasão da ilha de Santa Catarina, em 1777. Com a decadência da caça à baleia, transformou-se em um povoado de pescadores, onde se preservam muitas das tradições que caracterizam o litoral catarinense. A pequena capela de São João Batista, construída no século XVIII, ainda centraliza as principais festas, como a do padroeiro e a de São Sebastião. Hoje, a Armação é um dos mais famosos balneários do norte do estado, mantém forte a origem pesqueira e vem recebendo um número crescente de barcos de passeio, que desfrutam da sua belíssima paisagem.
Lagoa da Conceição
 
Uma das mais antigas freguesias da Ilha de Santa Catarina, criada em meados do século XVIII, a Lagoa da Conceição transformou-se em um verdadeiro cartão postal de Florianópolis. A tradição náutica se mantém, embora o turismo venha transformando os barcos de pesca em embarcações de passeio. Atualmente milhares de visitantes percorrem os seus recantos. Na Costa da Lagoa, por exemplo, dezenas de restaurantes convidam os visitantes a chegarem a pé ou de barco – já que não existem estradas – para saborear pratos típicos da Ilha. As coloridas baleeiras atracadas ao longo do trapiche, no centro da Lagoa, são os veículos mais utilizados nesses passeios.

Primórdios da Caça à Baleia no Brasil
 
Algumas décadas após o descobrimento do Brasil, a Coroa Portuguesa já tinha conhecimento da enorme abundância de baleias nas praias da costa brasileira. O padre Anchieta as via das janelas do Colégio da Bahia: “Andar saltando…” Gabriel Soares, pouco depois, dizia que “eram tantas, bandos de dez, 12, fazendo tanto barulho, que aterrorizavam os barcos que navegavam…” A presença delas era marcante de maio a junho e os olhos logo se voltaram para a baleia franca, a mais vulnerável das espécies, por viver muito próxima à costa. No entanto, a Coroa autorizou a caça à baleia no litoral catarinense somente na segunda metade do século XVIII.
A caça à baleia no Brasil colonial permaneceu essencialmente costeira, estendendo-se da Bahia até Santa Catarina. Uma publicação da década de 1960, escrita pela professora Miriam Ellis e resgatada pelo Projeto Baleia Franca, relaciona as seis armações baleeiras instaladas ao longo do litoral catarinense, locais onde se retirava os produtos do animal morto. Entre 1740 e 1742, estabeleceu-se a de Nossa Senhora da Piedade, hoje município de Governador Celso Ramos. Depois foi instalada a da Lagoinha, em 1772, na praia da Armação em Florianópolis.
A Armação de Itapocorói, região de Penha, surgiu em 1778 e as do sul apareceram praticamente juntas: a de Garopaba, entre 1793 e 1795; e a estação baleeira mais austral do Brasil, a de Imbituba, em 1796, também última a ser desativada, espantosamente em 1973, quando a caça já estava proibida. A da ilha da Graça, próxima a São Francisco do Sul, foi a última a ser implantada, em 1807.
A carne do animal nunca foi valorizada nas capturas. Aproveitava-se a camada de gordura, farta nas baleias francas, para a produção de óleo destinado principalmente à iluminação, lubrificação e fabricação de argamassa para construções. As baleias massacradas produziam em média 6.800 litros de óleo. Embora a maior parte do lucro obtido com a caça à baleia em Santa Catarina no período colonial fosse parar em Portugal, essa foi a primeira atividade industrial do estado.
A Matança
 
A técnica da caça praticamente não evoluiu entre os séculos XVIII e XX. A perseguição às baleias acontecia em baleeiras impulsionadas a remo e a vela. Os animais eram atingidos com um arpão rudimentar de ferro batido com farpas e uma haste de madeira, preso à lancha por um cabo. Depois de arpoada, era comum que a baleia arrastasse a lancha antes de, exausta, deixar a embarcação se aproximar. Então, golpes eram desferidos com uma lança de ferro de uns dois metros de comprimento e o animal sangrava até a morte. Comum e ainda mais cruel era arpoar primeiro o filhote, para atrair a baleia adulta e abatê-la quando estivesse amparando a cria.
A matança de mães e filhotes na costa brasileira por frotas americanas e européias fez o número de baleias francas despencar já no começo do século XIX, colocando a espécie rumo à extinção e as armações catarinenses, à beira da falência. Em 1830 o número desses cetáceos no sul do Brasil já havia declinado tanto que a área foi abandonada pelos baleeiros estrangeiros
Lembranças da caça
 
“(…) Eu só me alembro dos tanque. Aquilo é do tempo do ‘Cirgião’ (…) Porque os negro matavam as baleia num lanchão grande, num baterão grande…, ia cinco, seis… quando a baleia tava boiada um muncado pulava em cima e largava o arpão; e com um cabo grande ia uma bóia e eles iam acompanhando, quando a baleia pegava a virá sarto tava morrendo. Diz que era assim, o meu pai contava; quando a baleia morria eles traziam a remo, tudo a remo (…)”
Depoimento de Manoel Silva – ou Mané Silva, como é conhecido esse senhor que em 2003 completava 91 anos em Armação de Itapocorói (Penha) – a Pedro Bersi, para o livro Armação de Itapócorói / Mar e Sertão, ainda no prelo.
Tempo de viver
 
A baleia franca (Eubalaena glacialis) vive um novo e promissor período. Com o fim da caça, a população cresceu a cada ano e hoje proporciona verdadeiros espetáculos aos olhos de visitantes que se dirigem à região de Imbituba para observar esses animais cuidando dos filhotes. Quando termina o verão, elas deixam as áreas de alimentação no pólo sul e buscam a região costeira para se acasalar, ganhar e amamentar os filhotes. A viagem em direção ao litoral catarinense é feita a uma velocidade máxima de 12 quilômetros por hora. As baleias se concentram entre o Balneário de Rincão e Florianópolis, mas alguns grupos podem subir um pouco mais ao norte, até São Francisco do Sul.
Como todo cetáceo, a baleia franca é um mamífero adaptado à vida aquática. Pode medir mais de 17 metros de comprimento e pesar mais de 60 toneladas.
Seu esguicho em forma de V produz um som que pode ser ouvido a centenas de metros. Atinge entre cinco e oito metros de altura e resulta do ar quente expelido muito rapidamente durante a respiração. O conjunto de calosidades ou verrugas no alto e nas laterais da cabeça é a característica morfológica mais marcante da Eubalaena glacialis. Supõe-se que esse animal viva até cerca de 80 anos.
Estima-se que a gestação dure em torno de 12 meses. Em média, as fêmeas têm um filhote a cada três anos, que nasce normalmente entre junho e dezembro. Ele permanece ao lado da mãe em zonas costeiras de pouca profundidade até o final da temporada reprodutiva.
Extraído do site

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